A grana da Previdência já está no bolso dos bancos

A parcela liberal da população, que prega o Estado mínimo, deve estar esfuziante. Assim como já ocorre com educação e saúde públicas, degradadas propositalmente com fins de forçar a população a contratar os serviços privados, agora também a aposentadoria foi mandada para o desmanche.

Com as novas regras desejadas pelo governo golpista de Michel Temer, nas quais a idade mínima vai andando cada vez mais para longe e para se obter os vencimentos de forma integral é preciso ter saúde de ferro para trabalhar e ‘contribuir’ por ainda mais tempo, quem ganha mais uma vez é o setor privado.

Com a desconfiança de que a aposentadoria não virá a contento (se é que virá), mais de um milhão de pessoas (você leu direito, 1 milhão) aderiram a planos privados de previdência só em agosto deste ano. Os dados são da Fenaprevi, federação das entidades deste segmento. Inseguros, os brasileiros – os que podem, obviamente – injetaram R$ 34,17 bilhões nesses fundos este ano, por conta da incerteza do que mais a turma de Temer irá aprontar.

Essas empresas estão em festa. Elas obtiveram também uma nova portaria em setembro, que permite que invistam até 70% do dinheiro do cliente em ações. Antes, no máximo 49% do montante poderiam ser ‘arriscados’ no mercado. As regras foram anunciadas pela Susep (Superintendência de Seguros Privados). Ou seja, a prática de ganhar dinheiro com o dinheiro dos outros ficou mais atraente para os bancos.

As opções de novos ‘produtos’ – que é como são tratados nas instituições financeiras – nos quais é possível programar o valor da retirada em função da aplicação (as estrelas do momento são os PGBL e VGBL Programados) não irão satisfazer apenas os ricos. A classe média, mais uma vez, irá se enforcar para aderir a esses planos pois não verá outra saída (assim como ela não admite a possibilidade de colocar seus filhos na escola pública muito menos de fazer uso de hospitais públicos). E no fim das contas esses rendimentos recebem ainda uma mordida do leão.

Já para os pobres, bem, não restará saída. Terão que trabalhar, intermitentemente a R$ 4,50 por hora, até o final da vida.

Sem contar que se uma instituição dessas falir, caro leitor, não esqueça que o governo não cobre 100% do que você tinha lá. No caso de um banco, suas aplicações como conta corrente e poupança são asseguradas até o limite de R$ 250 mil pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) do Banco Central.

Já a previdência privada não possui um mecanismo de proteção ao investidor, como o FGC! Esses fundos e seguradoras são monitorados pela Susep “que zelará pelos interesses dos segurados” na hipótese de quebra. Tranquilizou?

Com o discurso de que a Previdência é deficitária (sem cobrar nem um centavo dos grandes devedores), o governo toca o pânico na população e dá uma mãozinha ao setor financeiro que bate recordes de lucratividade há décadas, não importa o tamanho da ‘crise’.

Destaque-se ainda que na última quarta-feira o Congresso aprovou um gasto de R$ 99 milhões para publicidade com a reforma da Previdência, sendo que até julho deste ano o governo já tinha torrado outros R$ 100 milhões com propaganda em rádio, revista, jornal, televisão e internet sobre esse tema (dados estão disponíveis no portal da Lei de Acesso à Informação do Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle).

Resumindo, o governo não cobra do rico devedor e ainda gasta quase R$ 200 milhões com publicidade para dizer ao povo que não tem dinheiro, entendeu?

Fonte: Blog Conversa Afiada com Paulo Henrique Amorim